A SPFW N61 mostrou uma moda brasileira cheia de textura, cor, trabalho manual e novas proporções. Veja as tendências que mais se repetiram e como elas podem chegar às lojas e ao guarda-roupa real.
A São Paulo Fashion Week chegou à edição N61 mostrando uma coisa que fica cada vez mais clara quando olhamos para a moda brasileira: não existe uma única direção para seguir. As passarelas trouxeram trabalhos artesanais, alfaiataria, transparências, peças utilitárias, volumes grandes, vermelho, lingerie aparente e muitas referências ligadas à cultura e aos materiais brasileiros.
A edição também teve um peso especial porque fez parte das comemorações dos 30 anos da SPFW. Os primeiros desfiles externos aconteceram em 13 de outubro, enquanto a programação principal seguiu entre 14 e 18 de outubro de 2026, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, e em outros pontos de São Paulo.
Ao contrário das semanas internacionais, também não faz muito sentido tentar colocar todas as marcas da SPFW dentro de uma única estação. Cada uma trabalha seu próprio calendário. O mais interessante é observar quais ideias começaram a aparecer em diferentes coleções e quais delas têm potencial para chegar ao varejo e ao nosso jeito de vestir.
Quem quiser conhecer todas as coleções pode acessar a página oficial de desfiles da São Paulo Fashion Week.
Neste artigo:
- O que marcou a SPFW N61
- Os desfiles que ajudaram a contar a temporada
- As tendências que mais apareceram
- O que pode chegar às lojas
- Como levar essas tendências para a vida real
- O que fica da SPFW 2026
O que marcou a SPFW N61
A SPFW N61 foi uma edição de contrastes.
De um lado, apareceram roupas muito ligadas ao fazer manual: crochê, renda, bordado, franjas, aplicações e técnicas que valorizam o tempo colocado na construção de uma peça.
Do outro, vieram referências urbanas, esportivas e utilitárias, além de alfaiataria, couro, volumes maiores e sobreposições.
Isso ajudou a criar uma temporada bastante brasileira sem depender de uma única imagem do que seria “moda brasileira”. As referências vieram de lugares diferentes: da cultura japonesa na Handred às marisqueiras do Delta do Parnaíba na Aluf, da paisagem mineira na Hisha ao trabalho de Burle Marx reinterpretado pelos participantes do Cria Costura.
Também houve espaço para discutir reaproveitamento e construção das roupas. A Uó por Marcelo Sommer, por exemplo, trabalhou com materiais vintage e peças já existentes para criar novos híbridos, misturando lingerie, alfaiataria e referências automobilísticas. A proposta pode ser vista na cobertura oficial do desfile da Uó.
Ou seja: mais do que uma estética única, a edição apresentou várias maneiras de pensar roupa, identidade e produção.
Os desfiles que ajudaram a contar a temporada
Com mais de vinte marcas no calendário, seria difícil falar de todas sem transformar este texto em um resumo desfile por desfile. Algumas apresentações, porém, ajudam bastante a entender os caminhos que apareceram ao longo da semana.
Herchcovitch;Alexandre abriu a semana entre leveza e peso
Alexandre Herchcovitch abriu a programação misturando elementos que parecem opostos: couro e tule, lingerie e peças esportivas, romantismo e referências clubber.
Transparências, renda e silhuetas alongadas dividiram espaço com volumes amplos e materiais mais pesados. Essa mistura já antecipava algo que continuaria aparecendo em outros momentos da SPFW: o contraste entre delicado e urbano.
Aluf transformou artesania em textura e movimento
Na Aluf, Ana Luiza Fernandes partiu do universo das marisqueiras do Delta do Parnaíba e da cestaria para construir uma coleção cheia de superfícies e volumes.
Redes, nós, palha, camadas desfiadas e referências ao mar apareceram em roupas e acessórios. Tons claros e crus ganharam companhia de azul e jeans índigo.
É um bom exemplo de como o trabalho artesanal pode aparecer de forma contemporânea, sem necessariamente parecer uma roupa tradicional ou folclórica.
Normando trouxe cor para a alfaiataria
A Normando, conhecida por trabalhar bastante preto e branco, levou azul, marrom e principalmente vermelho para a coleção inspirada no pintor Ismael Nery.
Alfaiataria e camisaria continuaram importantes, mas vieram acompanhadas de transparências, organza e pinturas feitas à mão.
Isso ajuda a perceber outro movimento da temporada: peças tradicionalmente mais sérias estão ganhando cor, transparência e novas proporções.
Ammi reforçou o trabalho manual
Em sua estreia na SPFW, a Ammi colocou o crochê no centro da coleção.
Flores, pétalas, corais e outras formas da natureza apareceram através de crochê, renda, bordados, babados e franjas. Algumas peças tinham caimento mais solto, enquanto outras ficavam próximas ao corpo.
O resultado reforçou algo que já vinha aparecendo em outras coleções: o artesanal continua tendo espaço importante na moda brasileira.
Apartamento 03 encerrou a edição com memória, sobreposição e reaproveitamento
A Apartamento 03 ficou responsável pelo encerramento da SPFW N61 com a coleção “Atempo”, assinada por Luiz Claudio Silva.
A proposta falou sobre as marcas deixadas pelo tempo e misturou memória, construção artesanal e reaproveitamento. Sobras de tecidos ganharam novas composições, enquanto materiais reaproveitados também apareceram nos acessórios.
Na passarela, calças amplas, vestidos transparentes, mantôs bordados e diferentes sobreposições ajudaram a construir uma coleção com bastante textura. Branco e preto dividiram espaço com cores mais fortes, como vermelho, azul e verde.
A apresentação completa pode ser vista na página oficial da Apartamento 03 na SPFW.
A marca também tem uma ligação interessante com a PatBO. As duas fazem parte do mesmo grupo empresarial e já desenvolveram uma colaboração juntas, embora tenham identidades próprias. Enquanto a PatBO é muito reconhecida pelos bordados elaborados e por uma feminilidade mais exuberante, a Apartamento 03 trabalha bastante com alfaiataria, construção, volumes e texturas.
Essa diferença deixa a conexão entre as duas ainda mais interessante: são linguagens distintas dentro da moda brasileira, mas que conseguem se encontrar principalmente no cuidado com os materiais e nos detalhes das peças.
As tendências que mais apareceram na SPFW N61
Quando olhamos os desfiles em conjunto, algumas ideias começam a se repetir. A ELLE Brasil reuniu tendências vistas na edição, e várias delas têm potencial para aparecer de forma mais simples no varejo.
Entre as que mais chamam atenção estão:
- vermelho: do vibrante aos tons mais fechados, inclusive em looks inteiros;
- artesania: crochê, renda, bordado, tramas abertas e acabamentos manuais;
- calças e volumes amplos: incluindo modelos com formas mais arredondadas;
- sobreposições: saias sobre calças, coletes, camisas e diferentes comprimentos usados juntos;
- transparências e lingerie aparente: muitas vezes combinadas com peças mais pesadas ou esportivas;
- utilitário: bolsos grandes, cargos e referências militares;
- franjas: presentes tanto em peças artesanais quanto em propostas mais estruturadas;
- cintos e corsets: trazendo novamente atenção para a região da cintura;
- bolsas grandes: modelos mais volumosos e menos estruturados.
Não é necessário olhar para essa lista como uma previsão de que todo mundo vai se vestir assim nos próximos meses. Tendência funciona melhor como um sinal de repetição: quando várias marcas começam a explorar uma ideia, ela ganha mais chance de circular também fora da passarela.
E algumas dessas tendências conversam com o que apareceu nas semanas internacionais. Transparências, cintura marcada, texturas e novas formas de usar peças clássicas também estiveram presentes na Paris Fashion Week Primavera/Verão 2027.
O que pode chegar às lojas?
A SPFW tem uma relação diferente com o mercado brasileiro quando comparada às semanas de moda internacionais.
As marcas estão mais próximas da nossa realidade de clima, produção, consumo e referências culturais. Isso não significa que tudo que aparece na passarela vai chegar diretamente às grandes redes, mas algumas ideias conseguem circular com bastante facilidade.
Entre as tendências desta edição com maior possibilidade de tradução para o varejo estão:
- camisas e blazers em tons de vermelho ou terrosos;
- calças mais amplas e modelos cargo;
- crochê e renda em blusas, vestidos e acessórios;
- franjas em bolsas e detalhes das roupas;
- transparências usadas sobre peças básicas;
- cintos marcando vestidos, blazers e camisas;
- bolsas maiores e mais práticas;
- mistura entre peças esportivas e alfaiataria.
Também vale observar a presença forte de técnicas artesanais. Na coleção da Aluf, por exemplo, redes, nós e texturas inspiradas na pesca foram transformados em peças contemporâneas. A apresentação completa está no site oficial da SPFW.
Essas referências podem chegar às lojas de maneira muito mais simples. Um vestido inteiro de crochê pode virar uma regata. Uma sobreposição complexa pode ser traduzida em uma combinação mais simples. Um look todo vermelho pode aparecer apenas em uma bolsa, uma camisa ou um sapato.
A passarela apresenta a ideia em volume máximo. O varejo normalmente reduz, adapta e mistura essa ideia com peças que já fazem parte da nossa rotina.
Como levar as tendências da SPFW para a vida real?
Não é necessário comprar um guarda-roupa novo para aproveitar o que apareceu nesta edição.
Algumas tendências são, na verdade, novas maneiras de usar peças que já conhecemos.
1. Comece pelo vermelho em pequenas doses
Se um look inteiro vermelho parece demais, experimente uma bolsa, sapatilha, camiseta ou terceira peça.
Também dá para combinar tons mais fechados, como vinho e vermelho queimado, com jeans, bege, marrom, branco ou preto.
2. Traga o artesanal para uma única peça
Uma blusa de crochê, uma bolsa feita à mão ou um detalhe de renda já conseguem trazer textura para uma combinação simples.
Não precisa misturar crochê, bordado, renda e franja no mesmo look.
3. Experimente novas proporções
Calças amplas e volumes maiores apareceram bastante. Para equilibrar, você pode combinar uma parte de baixo mais volumosa com uma camiseta, regata ou camisa simples.
Mas não existe obrigação de deixar a parte de cima sempre justa. Um look inteiro mais amplo também pode funcionar quando os comprimentos e os tecidos conversam entre si.
4. Use transparência em camadas
Uma peça transparente pode aparecer sobre uma regata, top ou camiseta.
Essa é uma forma bem mais fácil de trazer a tendência para o cotidiano do que reproduzir uma transparência de passarela literalmente.
5. Teste sobreposições com o que você já tem
Camisa aberta sobre regata, colete sobre camiseta ou até vestido sobre calça são algumas possibilidades.
O mais interessante é experimentar antes de comprar. Muitas vezes, uma tendência nova pode surgir apenas mudando a forma de combinar roupas antigas.
O que fica da SPFW 2026?
A SPFW N61 mostrou uma moda brasileira que consegue falar de artesanato, cidade, história, cultura, tecnologia e reaproveitamento sem precisar colocar tudo dentro da mesma estética.
Se existe algo que conecta boa parte das coleções, talvez seja justamente o interesse por textura, construção e mistura.
O crochê apareceu ao lado da alfaiataria. A lingerie encontrou peças esportivas. O utilitário ganhou transparência. O vermelho entrou tanto em produções sofisticadas quanto em propostas mais urbanas. E roupas amplas conviveram com corsets e cinturas marcadas.
Para quem acompanha as tendências pensando no próprio guarda-roupa, isso abre bastante espaço.
Não existe uma única peça que precise ser comprada para parecer atual. É possível escolher uma cor, uma textura, uma proporção ou uma combinação e adaptar ao que já faz sentido para cada pessoa.
E talvez essa seja uma das diferenças mais interessantes de olhar para a SPFW depois de acompanhar Nova York, Milão e Paris: aqui, as tendências chegam acompanhadas de referências, materiais e formas de fazer que estão muito mais próximas da moda produzida no Brasil.
No fim, a tendência que vale entrar no guarda-roupa continua sendo aquela que consegue sair da passarela e funcionar na vida real.
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Para continuar acompanhando as tendências das principais semanas de moda desta temporada: