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Quem decide o que vai estar na moda? Entenda como surgem as tendências

Profissional de moda trabalhando com croquis e tecidos em um ateliê de criação.
Foto: Vitaly Gariev / Pexels
Tereza Katieli
por Tereza Katieli Publicado em 27/10/2026

As tendências não são escolhidas por uma única pessoa. Descubra como a cultura, as passarelas, as marcas e as redes sociais influenciam as roupas que chegam às lojas.

Você entra em uma loja e encontra uma saia que lembra muito uma que era popular anos atrás. Na vitrine seguinte, aparece outra parecida. Abre o celular e descobre que a mesma ideia está em vídeos, fotografias de street style e coleções de marcas diferentes. Parece até que todo mundo recebeu a mesma orientação.

Mas quem decidiu que aquela peça voltaria a estar na moda? Foi um estilista? Uma empresa especializada em tendências? Uma celebridade? Ou foram as próprias pessoas que começaram a usá-la novamente?

A resposta é mais interessante do que parece: não existe uma única pessoa escolhendo o que vamos vestir. As tendências surgem de uma mistura de comportamento, cultura, criação, interesses comerciais e escolhas dos consumidores. E o caminho entre uma ideia e a vitrine pode começar muito antes de percebermos.

Neste artigo:

Afinal, quem decide o que vai estar na moda?

Imagine uma sala com profissionais escolhendo todas as roupas que vão aparecer nas lojas no próximo ano. A cena até poderia fazer parte de um filme, mas a moda não funciona dessa maneira.

Existem profissionais que pesquisam o comportamento das pessoas, estilistas que interpretam essas informações, marcas que decidem o que produzir e compradores que selecionam o que será vendido. Há também artistas, comunidades, criadores de conteúdo e consumidores influenciando o processo, mesmo sem trabalhar na indústria.

Uma tendência é uma direção que começa a ganhar força, seja em uma cor, uma modelagem, um material ou na maneira de combinar roupas. Ela não significa que todas as pessoas vão usar a mesma coisa. Tampouco precisa nascer em uma grande grife para ser importante.

Pense em um blazer amplo. Ele pode aparecer primeiro em grupos que gostam de peças vintage, ganhar novas proporções em desfiles, ser adotado por pessoas conhecidas e, depois, surgir em versões mais acessíveis nas lojas. O exemplo é ilustrativo, mas ajuda a entender o mecanismo: diferentes participantes reforçam uma mesma ideia.

O curioso é que esse movimento também pode acontecer no sentido contrário: algo começa nas ruas e só depois desperta o interesse de estilistas e marcas.

Onde nascem as tendências de moda?

É comum imaginar que as tendências começam nas passarelas de Paris ou Milão. Os desfiles têm influência, mas a moda observa o mundo muito antes de chegar à passarela.

Música, cinema, movimentos culturais, hábitos de trabalho, novas tecnologias, clima e mudanças na forma de viver ajudam a transformar o que as pessoas consideram bonito, confortável ou desejável.

Um exemplo histórico são os estilos ligados a movimentos jovens e contraculturais. Elementos que nasceram como expressão de identidade nas ruas acabaram reinterpretados por designers e incorporados à moda comercial. A exposição Trend-ology, do Museu do Fashion Institute of Technology, mostra como arte, música, comportamento e moda de rua influenciaram tendências ao longo de séculos.

Isso não quer dizer que todas essas referências sejam aproveitadas de maneira respeitosa. Ao transformar um símbolo cultural em produto, a indústria também precisa lidar com questões de contexto, autoria e apropriação.

O que os profissionais observam nas ruas?

Nem sempre procuram uma roupa completamente nova. Às vezes, o sinal está em uma mudança pequena: uma calça usada com outro tipo de sapato, o retorno de uma cor esquecida ou uma preferência crescente por peças mais confortáveis.

Esses sinais só começam a indicar algo maior quando aparecem em contextos diferentes e mostram potencial de continuidade. Ver três pessoas com o mesmo look não basta para declarar uma tendência.

Mulher caminhando em frente a vitrines de moda em uma rua urbana.
Foto: David Kouakou / Pexels

Nas semanas de moda, esse diálogo fica bastante visível. Enquanto as marcas apresentam suas coleções, o público nas ruas também cria referências. No blog, já observamos essa relação nos artigos sobre a Milan Fashion Week Primavera/Verão 2027 e a Paris Fashion Week Primavera/Verão 2027.

Quem tenta prever o futuro da moda?

Se ninguém controla sozinho o que vai estar na moda, como uma marca consegue planejar uma coleção com tanta antecedência?

É aí que entra a pesquisa e previsão de tendências, também chamada de trend forecasting. O trabalho não consiste em adivinhar quais roupas farão sucesso. Consiste em reunir pistas e avaliar quais mudanças podem se tornar relevantes para determinados públicos.

Empresas como a WGSN acompanham movimentos culturais, hábitos de consumo, mercados e dados para produzir análises utilizadas por marcas e equipes de produto. Uma previsão pode envolver desde mudanças amplas no comportamento até cores, tecidos e categorias de roupa.

Na prática, esse trabalho pode incluir:

  • Observar comportamentos: como as pessoas trabalham, compram, se divertem e se vestem.
  • Identificar sinais: referências que aparecem em comunidades, desfiles, lojas e plataformas digitais.
  • Comparar informações: distinguir um interesse passageiro de uma mudança com chances de durar.
  • Traduzir descobertas: sugerir caminhos para produtos, materiais, cores e comunicação.

E a Pantone decide as cores da moda?

Não exatamente. A Pantone explica que sua Cor do Ano resulta de pesquisas e análises de tendências de cor. A escolha desperta atenção e pode inspirar empresas de moda, beleza e decoração, mas não é uma ordem para que todas as marcas usem aquela tonalidade.

As previsões ajudam a orientar decisões. Ainda assim, podem não se confirmar: o público pode preferir outras cores, uma peça pode ter vendas fracas ou um acontecimento inesperado pode mudar o interesse das pessoas.

Como uma tendência chega às lojas?

Entre notar uma tendência e encontrá-la em uma arara existe um trabalho que quase nunca aparece nas fotografias dos desfiles.

Imagine que várias marcas percebam um interesse crescente por roupas com textura artesanal. Isso não significa que todas vão produzir exatamente o mesmo vestido de crochê. Uma pode desenvolver uma blusa; outra, uma bolsa; outra, apenas detalhes feitos à mão. Cada empresa adapta a ideia ao seu público, ao preço e às possibilidades de produção.

Da referência à peça pronta

  1. Pesquisa e direção criativa: a equipe reúne referências e define o conceito da coleção.
  2. Desenho e desenvolvimento: surgem croquis, escolhas de tecidos, modelagens e peças-piloto.
  3. Ajustes e seleção: são avaliados caimento, acabamento, custos e quais modelos fazem sentido comercialmente.
  4. Produção e distribuição: as peças aprovadas são fabricadas e encaminhadas para lojas ou comércio eletrônico.
  5. Resposta dos consumidores: vendas, comentários e preferências ajudam a orientar as próximas decisões.
Croquis de moda e amostras de tecidos sobre uma mesa durante o desenvolvimento de uma coleção.
Foto: Michael Burrows / Pexels

O tempo necessário varia bastante. Algumas coleções são planejadas com muitos meses de antecedência; outras empresas trabalham com ciclos mais curtos. A McKinsey descreve como o desenvolvimento, a produção e a chegada ao mercado dependem do modelo de negócio de cada empresa.

É por isso que uma tendência vista na passarela nem sempre aparece de forma literal na vitrine. O varejo costuma selecionar ou adaptar o que considera adequado para seus clientes.

Na SPFW 2026, por exemplo, observamos transparências, vermelho, volumes e trabalhos artesanais. Fora do desfile, essas ideias podem aparecer de maneiras mais discretas: um detalhe rendado, uma blusa com textura ou um acessório colorido. O elemento central permanece, mas a roupa muda para acompanhar a vida real.

As redes sociais decidem o que vira tendência?

Hoje, uma peça pode chamar atenção no vídeo de alguém que nem trabalha com moda. Em pouco tempo, outras pessoas começam a comentar, salvar referências e experimentar versões semelhantes. As marcas observam esse movimento e podem reagir.

Isso mudou a velocidade com que certas estéticas se espalham. Antes, grande parte das imagens de moda chegava ao público por revistas, campanhas e desfiles. Agora, qualquer pessoa pode publicar uma combinação e influenciar quem a acompanha.

Mas há uma diferença importante entre uma tendência muito vista e uma tendência realmente usada. O algoritmo pode repetir uma estética inúmeras vezes na tela, enquanto ela continua distante da rotina, do orçamento ou do gosto da maioria das pessoas.

Mulher de blazer cinza olhando o celular enquanto caminha por uma rua urbana.
Foto: Andrea Piacquadio / Pexels

Por que algumas tendências pegam e outras desaparecem?

Uma roupa pode ser linda nas fotografias e pouco prática no cotidiano. Pode custar caro, exigir cuidados difíceis ou simplesmente não combinar com a maneira como a maioria das pessoas gosta de se vestir.

Outras propostas encontram espaço porque oferecem algo que já fazia falta: conforto, facilidade de combinação, uma nova proporção ou uma forma de expressar identidade.

É por isso que nem toda novidade vira tendência duradoura. Algumas ideias aparecem com muita intensidade e desaparecem rapidamente. Outras atravessam várias temporadas e acabam deixando de ser percebidas como novidade.

Também não precisamos escolher entre seguir tudo ou ignorar completamente as tendências. Elas podem servir como inspiração para olhar de outro jeito as peças que já temos. No artigo Como descobrir seu estilo pessoal, falamos justamente sobre reconhecer referências sem perder a própria identidade.

No fim, talvez a resposta mais interessante seja esta: ninguém decide sozinho o que vai estar na moda — nem mesmo quem trabalha criando ou prevendo tendências. Estilistas propõem, pesquisadores observam, marcas investem, redes sociais espalham e as pessoas escolhem o que faz sentido para elas.

Da próxima vez que você encontrar a mesma cor ou modelagem em várias vitrines, vale fazer outra pergunta: onde será que essa ideia começou a ganhar força? O caminho pode ser muito mais surpreendente do que a própria roupa.

Veja também: NYFW Primavera/Verão 2027 e Melhores tecidos para o verão.